Campeonato Brasileiro de Degustação às Cegas: quando até os experts erram (e se divertem!)

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Campeonato Brasileiro de Degustação aconteceu em São Paulo

Numa cena icônica de Apollo 13, o diretor de voo Gene Kranz (Ed Harris) joga peças sobre a mesa e desafia os engenheiros: encontrar uma forma de fazer um pino quadrado entrar em um buraco redondo. A vida dos astronautas dependia disso.

Na degustação às cegas, a regra é justamente o contrário: não tentar forçar um encaixe. Como disse Mario Lescano Junior na masterclass Os segredos da degustação às cegas:
“Se tem rabo de porco, focinho de porco e orelha de porco… é porco! Não tente encaixar um cavalo nessa descrição.”

O campeonato

O primeiro Campeonato Brasileiro de Degustação às Cegas foi iniciativa de Mário Márcio Lescano Jr. e Maurício Ceccon, amigos com longa experiência como educadores de vinho na Celebrare Escola de Vinhos e integrantes da equipe brasileira que compete na World Tasting Championship, organizada anualmente pela La Revue du Vin de France. O campeonato francês serviu de inspiração.

O torneio reuniu 60 participantes, entre profissionais e curiosos, todos com o mesmo objetivo: se divertir, aprender e testar conhecimentos. Foram servidos 12 vinhos sem rótulo, cada um valendo pontos em diferentes categorias:

  • Variedade da uva – 10 pontos

  • País – 7 pontos

  • Região – 5 pontos

  • Safra – 3 pontos

Somando tudo, eram 300 pontos possíveis. Os participantes tiveram dez minutos para avaliar cada vinho e, a cada rodada, o rótulo era revelado.

Quem brilhou foi o jovem Matheus Vargas, campeão com 119 pontos — um placar que mostra como esse tipo de desafio é exigente até para degustadores experientes.

As pegadinhas na taça

Eu não competi, e talvez por isso assistir à revelação dos vinhos tenha sido tão divertido. A seleção trouxe uvas e estilos menos comuns, verdadeiras armadilhas para quem se deixou levar por ideias pré-concebidas:

  • Um Riesling do Nahe (produtor Dornfelder), sem o famoso aroma de petróleo — que, aliás, não deveria ser a marca definitiva da variedade. Os grandes produtores preferem que esse aroma não apareça em vinhos jovens. Ainda assim, muitos competidores descartaram a resposta correta.

  • Um elegante Etna Rosso de Nerello Mascalese, da Sicília — um dos menos acertados, com palpites entre Pinot Noir e Nebbiolo.

  • Um Grüner Veltliner austríaco.

  • Um georgiano de qvevri, elaborado com a uva Rkatsiteli.

  • E até um representante nacional: o 100% Cabernet Sauvignon Villa Lobos, da Casa Valduga.

Desafiador: um vinho georgiano para ser identificado às cegas

Na masterclass: dicas, metodologia e… mais erros

Após o anúncio dos resultados, veio a parte mais didática: a masterclass para compartilhar as “dicas” da degustação às cegas. Na verdade, tratava-se de uma metodologia de análise lógica, que começa por uma regra de ouro: não tente fazer o pino quadrado encaixar no buraco redondo.

Parece simples. Mas não é. O mesmo Riesling sem petróleo da competição foi novamente servido às cegas. E, embora vários alunos da aula tivessem participado do campeonato, quase ninguém reconheceu o vinho — nem que era o mesmo rótulo, nem que era um Riesling!

Segundo Mario, a expectativa pelo aroma de petróleo pesou mais do que as percepções reais. Os aromas minerais, típicos da variedade em sua juventude, estavam lá. Mas a força das ideias pré-concebidas desviou os palpites.

Os vinhos do desafio

Uma adivinhação educada

As dicas para esse exercício de adivinhação avançam de forma lógica, avaliando cor, intensidade, aromas de frutas e notas secundárias — exatamente como se ensina nas escolas de vinho (e até nos vídeos de TikTok por aí). A diferença está no repertório.

De nada serve ler que “grafite é típico de Cabernet Franc” sem nunca ter provado um vinho com esse aroma. Além disso, nossa memória olfativa é profundamente pessoal: o que um chama de grafite, outro chama de pedra, ou até de “cheiro da caixa de ferramentas do vô”. Padrões podem ser úteis, como ensina o WSET, mas só funcionam se antes tivermos acumulado experiência. E experiência, no mundo do vinho, se chama litragem.

Mundo, mundo, vasto mundo

O campeonato mostrou um pouco da vastidão que é o mundo dos vinhos. Mesmo aplicando a técnica do “chute educado”, em que se analisam os fatos e se descartam impossibilidades, as opções permanecem quase infinitas.

Na masterclass, começamos com um branco de intensidade média. Havia algo verde, mas não parecia Sauvignon Blanc. Algo de fruta de caroço, talvez um pêssego. Floral? Quem sabe. Velho Mundo ou Novo Mundo? Boa pergunta. Minha aposta final: Chenin Blanc da África do Sul.

Revelação: era um Verdicchio di Castelli di Jesi. Estatisticamente improvável, mas não impossível. Um ótimo lembrete de que o mundo do vinho está sempre pronto para nos surpreender.

Errei — e me diverti muito no processo. Tanto que já fiquei com vontade de juntar uma turma para treinar e, quem sabe, competir no próximo ano.

Escrevendo agora fiquei poética e me lembrei de Drummond:

Mundo, mundo, vasto mundo
Mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer,
Mas essa Lua,
Mas esse conhaque (ou vinho?)
Botam a gente comovido como o diabo.

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