
Quando a família Álvarez — proprietária da mítica Vega Sicilia — chegou à Hungria, no início dos anos 1990, Tokaj era uma joia empoeirada. A região, que já havia produzido o vinho favorito de reis, papas e czarinas, sobrevivia com prestígio apenas nominal. Décadas de produção padronizada sob o regime soviético haviam reduzido seu brilho a lembranças.
A compra da vinícola Oremus, em 1993, foi um ato de arqueologia enológica e marcou o ponto de partida do renascimento da região. Um resgate paciente de um passado lendário que, por pouco, não se perdeu.
O acaso que criou um mito
Imagine um mundo em que o açúcar ainda não seja a commoditie que é hoje — acessível a praticamente todas as classes sociais no mundo todo. O clima mais frio dificultava a concentração natural de açúcares nas uvas. Nesse contexto, em que apenas reis tinham o luxo de adoçar qualquer alimento, um vinho naturalmente doce — extremamente doce — era o luxo dos luxos. Praticamente um milagre.
E esse néctar adocicado era consistentemente produzido num vilarejo húngaro chamado Tokaj. Era um vinho feito com uvas murchas (aszú, no húngaro antigo), desidratadas pelo tempo e pela ação de um fungo muito especial. Conheça-o a seguir.
Vinho dos reis e da diplomacia
Luís XIV da França cunhou a frase “vinho dos reis, rei dos vinhos”, tamanha sua devoção ao líquido dourado. A czarina Catarina, a Grande, fazia remessas regulares para São Petersburgo e chegou a enviar tropas para proteger as rotas de entrega e garantir que seus estoques nunca secassem. Papas, escritores como Voltaire e Goethe e até Mozart citavam Tokaj em cartas e diários. O vinho da pequena região húngara havia conquistado a elite europeia.
Posteriormente a diplomacia fez bom uso de seu prestígio, presenteando monarcas e enviados estrangeiros. No século XVIII, as receitas geradas com o comércio do Aszú ajudaram a financiar a guerra de independência da Hungria contra o Império Habsburgo.
O nascimento do Aszú
A história do Tokaji Aszú remonta ao século XVII. Diz a lenda que o pastor protestante Szepsi Laczkó Máté adiou a colheita por medo de invasões turcas. Ao voltar ao vinhedo, encontrou uvas desidratadas e atacadas por fungos. Em vez de descartá-las, como seria sensato, decidiu usá-las na vinificação. O resultado foi um vinho doce, concentrado e vibrante, que se tornaria referência mundial.
Por sorte, o fungo em questão era a Botrytis cinerea – ou “podridão nobre”. Esse fungo, que em qualquer outro contexto seria uma praga, em certas condições muito específicas faz justamente o oposto: perfura a casca da uva, desidrata o grão e concentra açúcares e aromas, criando vinhos doces de textura sedosa e acidez vibrante. É o mesmo fungo que ocorre na região francesa de Sauternes, onde é produzido o famoso Château d’Yquem.
Colheita tardia – a paciência recompensada
O atraso na colheita é menos dependente de terroir e é prática atualmente em várias partes do mundo quando se deseja obter vinhos doces ou mais alcóolicos. Os alemães alegam que a colheita tardia foi criação local, onde hoje fica o famoso Schloss Johannisberg, na região do Rheingau, em 1775. Ouça aqui.
Embora a colheita alemã esteja bem documentada (coisa dos monges), a história húngara é mais antiga. Remonta a 1630 e alguns historiadores calculam que seja mesmo anterior, por volta de 1570. As datas são imprecisas, mas é fato que a fama do Aszú espalhou-se rapidamente.
Como nasce um Aszú
O segredo do estilo está na seleção manual das uvas botritizadas. A colheita acontece bago a bago, escolhendo apenas os grãos afetados. Um processo que os franceses, anos depois, chamaram sélection de grains nobles. Em Tokaj, esses grãos de uva especiais eram colhidos em cestos chamados puttonyos e então misturados ao mosto regular (de uvas sadias) para fermentação.
Cada puttonyo contém cerca de 25 quilos de uvas, e quanto mais cestos forem adicionados ao mosto, mais afetarão o caráter da mistura final. A principal característica afetada é a concentração de açúcar, mas a ação dos fungos cria também novos aromas. Os vinhos, ao final, carregavam a indicação de quantos puttonyos haviam sido adicionados em seu processo. Quanto mais puttonyos, mais doce e complexo o vinho.
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Atualmente o processo é mais técnico: o açúcar é medido em vez de contado em cestos, mas os puttonyos seguem nos rótulos. Desde 2013, um Tokaji Aszú deve conter o mínimo de 120 g/l de açúcar residual — o equivalente, aproximadamente, a um antigo 5 puttonyos.
Além do Aszú, Tokaj também produz o raríssimo Eszencia, que leva o néctar que escorre naturalmente das uvas. É um dos vinhos mais concentrados e longevos do mundo.
Da decadência ao renascimento
Embora desfrutasse da boa fama entre reis e czarinas, o século XX trouxe tempos difíceis para o Tokaji. Durante o domínio soviético, a produção foi coletivizada, priorizando quantidade em detrimento da qualidade. A tradição artesanal quase desapareceu, e Tokaj perdeu espaço no cenário internacional.
Com a queda da cortina de ferro, esforços começaram a ser coordenados para resgatar a histórica região. Entre eles, o da a icônica Vega Sicilia. Ao adquirir a Oremus, os espanhóis replantaram vinhedos, recuperaram castas autóctones como Furmint e Hárslevelű, modernizaram a vinificação e, principalmente, devolveram paciência ao processo: fermentações lentas, envelhecimento em caves históricas e um respeito quase monástico ao terroir.
O nome Oremus, aliás, vem do latim e significa literalmente “oremos” — uma escolha simbólica para um projeto que unia fé, paciência e renascimento.
Tokaj além dos vinhos doces
Anteriormente a fama de Tokaj se devia quase exclusivamente aos vinhos Aszú, mas atualmente o cenário é mais amplo e dinâmico. Nas últimas décadas, produtores locais e estrangeiros vêm explorando versões secas da uva Furmint, capazes de traduzir o caráter vulcânico dos solos.
Esses vinhos brancos — tensos, minerais e gastronômicos — são a nova face da região. A própria Oremus produz um Furmint seco que combina frescor e estrutura, lembrando em estilo alguns grandes brancos da Borgonha, mas com personalidade própria.
Essa nova geração de Tokaj mostra que a região não vive apenas de glórias passadas: ela aprendeu a equilibrar história e inovação sem perder autenticidade.
Oremus: o primeiro grand cru
Atualmente a região, que fica no noroeste Húngaro, compreende 27 cidades e povoados, com cerca de 5.600 hectares de vinhedos assentados sobre solos vulcânicos, ricos em minerais e capazes de imprimir identidade marcante aos vinhos locais.
O vinhedo Oremus já figurava entre os mais respeitados de Tokaj muito antes da chegada da Vega Sicilia. Em 1772, foi classificado como Primae Classis — a primeira classificação formal de vinhedos do mundo, anterior aos grands crus franceses. Atualmente a variedade autóctone Furmint cobre mais de 70% dos vinhedos da propriedade e participa tanto de seu vinho seco – Mandolás – quanto dos famosos doces.
Robert Kindl – enólogo e diretor geral – esteve no Brasil e realizou uma série de degustações com a imprensa e público especializado. Provamos:
- Oremus Late Harvest: blend das variedades Hárslevelü (notas florais), Zéta (aporta estrutura), Kövérso″lo″ e Sarga Muskotály (complexidade aromática) combinando grãos sãos e botritizados de um mesmo cacho.
- Oremus Aszú 3 Puttonyos: notas frescas e florais, com doçura compatível com gastronomia coreana e tailandesa.
- Oremus Aszú 5 Puttonyos: definitivamente um vinho de sobremesa. Mostrou equilíbrio entre doçura e acidez, com super potencial de guarda.
- Oremus Aszú 6 Puttonyos: luxuosa complexidade e doçura para hedonistas
Você poderá encontrar esses vinhos no Brasil no portfólio da Mistral.







