
Quando pensamos em vinhos da ilha italiana Sicília, Donnafugata é um dos primeiros nomes que vêm à mente. Os vinhos, com seus rótulos coloridos e peculiares, chamam a atenção nas prateleiras e já criaram uma identidade visual imediatamente reconhecível. A vinícola familiar produz vinhos em todos os cantos da ilha e especialmente em seus pontos mais icônicos e inóspitos: o hype Etna e a clássica ilha de Pantelleria. Minha visita calhou de ser no Etna.
A saga dos Rallo: tradição e ruptura
A história da Donnafugata começa com a família Rallo, enraizada em Marsala, onde a viticultura era parte da tradição local. Em 1983, Giacomo Rallo e sua esposa Gabriella fundaram a vinícola, decididos a criar algo diferente. Gabriella, especialmente, escolheu sair de uma carreira mais “comum” para se lançar de corpo e alma no mundo do vinho — um setor então dominado por homens. Ela é a verdadeira donnafugata, me conta minha guia na visita à vinícola.
Donnafugata, que significa “mulher em fuga”, carrega várias camadas de significado: liberdade, elegância feminina e a metáfora da mulher que se lança e desafia limites. Mas também é coisa de homens que acreditam em mulheres: Giacomo apostou na competência da esposa como viticultora numa época em que a atividade era dominada por homens e também incentivou a filha José, que hoje divide a direção da empresa com o irmão, a trabalhar em marketing para empresas maiores. Ele queria que a filha aprendesse e voltasse para ensiná-los a comerciar os vinhos fora da ilha. Hoje em dia, mais de 45% do cargos de chefia são ocupados por mulheres.
No contexto histórico, Donnafugata também é o nome de um castelo italiano (aberto a visitação) e da casa de campo de Don Fabrizio Corbera, Príncipe de Salina, no romance Il Gattopardo, do escritor italiano Giuseppe Tomasi di Lampedusa. Apesar de fictício, foi esse segundo que parece ter inspirado o nome da vinícola da família Rallo. As conexões com o premiado romance italiano seguem fortes, com a edição limitada da safra 2022 do blend Mille e una Notte edição Gattopardo. O vinho foi lançado em 2025 em parceria com o canal de streaming Netflix, que produziu uma minissérie baseada no livro nesse ano.
A mulher em fuga com cabelos esvoaçantes também se faz notar nos rótulos coloridos assinados pelo artista Stefano Vitale. Desde 1994, quando estampou as garrafas do Donnafugata La Fuga, os traços característicos do artista viraram marca registrada da vinícola.

A Donnafugata atualmente produz 33 rótulos de vinhos em 5 regiões Sicilianas, além de 2 grapas, alcaparras de Pantelleria e 4 azeites (varietais no Etna, Pantelleria e Sicília mais um blend em Contessa Entellina). Provei o varietal local, da autóctone Nocelera Etnea. Um extra virgem frutado e especiado.
Pantelleria: viticultura heroica
Embora tenha nascido em Marsala, onde ainda hoje os vinhos maturam nas caves esculpidas no solo de tufa, a Donnafugata hoje tem vinhedos nas regiões de Contessa Entellina (~300ha de vinhedos com variedades internacionais e locais, algumas em risco de extinção como Cattarato Lúcido e Nocera), Vittoria, Pantelleria e Etna. A expansão foi lenta, feita de escolhas difíceis.
Giacomo Rallo desde os anos 1970 sonhava com produzir vinhos no Etna, mas na época das comprar de terras e criação da vinícola, em 1983, acabaram optando por focar os recursos na parte oeste da Sicília, e ficaram com a Ilha de Pantelleria (1989).

Castigada pelo vento Sirocco (que pode chegar por lá a 95km/h) e sol intenso, com solos negros vulcânicos extremamente áridos. A agricultura na ilha é altamente demandante e de baixos rendimentos – foi um desafio e um aprendizado. Os vinhedos precisam ser cultivados rente ao solo, numa técnica chamada alberello pantesco, que não economiza na dor de cabeça (e dor nas costas).
As plantações de Zibibbo (nome local da Moscatel de Alexandria e, mais uma vez, marca da dominação árabe na região, que usava a palavra zãbib para passas) são em terraços, entre antigos muros de pedra. Os vinhedos mais expostos precisam ser protegidos com quebra-ventos. Não à toa a atividade é classificada como agricultura heróica.
Dos cerca de 50ha cultivados pela Donnafugata saem vinhos secos, semi-secos e o icônico Ben Ryé – filho do vento em árabe. Um Passito feito de Zibibbo madura e uvas secas ao vento e ao sol (estendidas sobre esteiras no solo, numa técnica chamada apassimento, que concentra seus açúcares). A primeira safra foi em 1989. O resultado é um líquido denso e dourado, com aromas de pêssego, tâmaras e laranja cristalizada. Eu degustei a safra 2022, harmonizada com biscoito de avelãs cultivadas localmente.
Sugestão de imagem: Vinhedos de Pantelleria com cordões baixíssimos.
Alt text: Vinhedos de Zibibbo em Pantelleria, Sicília.
Etna e Vittoria: o outro lado da ilha
Após o falecimento de Giacomo Rallo em 2016, a família se viu compelida a expandir seus domínios para o oeste da ilha. Com foco especial no monte Etna como forma de honrar o sonho antigo do patriarca. Começando por Vittoria, na província de Ragusa, com 33ha dedicados às especialidades locais Nero Davola e Frappato, base do Cerasuolo di Vittoria – único vinho categoria DOCG siciliano.
O Etna finalmente aconteceu em 2018. A terras foram adquiridas na seção norte, uma zona da DOC a mais de 700 metros de altitude em Castiglione di Sicilia, na comuna de Randazzo. São 33ha que se estendem por 8 distritos dedicados apenas às variedades locais: Nerello Mascalese e Nerello Capuccio para os tintos; Carricante e Cattarato para os brancos.
Apesar de protegido das brisas do Mar Tirreno, ao norte, pelas montanhas Nebrodi (uma extensão dos Apeninos, a cadeia montanhosa que atravesa e define o relevo de toda a Itália) os vinhedos nessa zona recebem forte influência do mar Jônico ao leste, a poucos quilômetros de distância e sem barreiras de proteção. Neste micro terroir as uvas têm amadurecimento lento e equilibrado. É nessa parte que estão instalados os produtores mais tradicionais, como Terre Nere e Passopisciaro.
Na visita, conheci o vinhedo mais próximo ao centro de visitantes: da variedade Carricante com 7mil plantas/ha. Eles não são certificados orgânicos mas são extremamente conscientes com o uso da terra: me falaram de adubação orgânica, de não usarem pesticidas e ferormonios que confundem os insetos daninhos. Me explicaram que consideram a regulamentação do manejo orgânico, especialmente na Itália, confusa e equivocada. Por isso preferem ser fieis à própria filosofia.
Do wine bar onde é feita a degustação, pode-se ver o imponente vulcão ao fundo, criando um cenário único. A maioria dos vinhos que degustei foram daqui.
Dolce & Gabbana e a Nocera
A visita à Donnafugata me mostrou que a estratégia de Giacomo de enviar a filha José a aprender sobre marketing em grandes empresas parece ter funcionado muito bem. Além da parceria estratégica com a Netflix em torno do romance Il Gattopardo, uma parceria com o conterrâneo Domenico Dolce (da famosa marca de luxo italiana Dolce & Gabbana) rendeu vinhos exclusivos e rótulos de grife, que refletem a estética da marca e celebram a Sicília.
Fiquei particularmente impressionada com o Rosa. O vinho que me apresentou a uva Nocera. A autóctone é típica do nordeste da ilha, na região do estreito de Medina (por onde se faz a travessia de carro desde o continente). O rosé homenageia dona Rosa, mãe de Domenico, e é o único vinho Donnafugata produzido com uvas de diferentes lugares: a Nocera vem de Contessa Entelina e a Nerello Mascalese do Etna.
O vinho tem um delicioso aroma de tutifruti com flores que, me explicou minha guia, é o aporte da Nocera ao blend. Fiquei curiosíssima para provar em varietal (e acabei encontrando um na DOC Faro para trazer!).
Os representantes do Etna
Degustados juntos, Isolano e Sul Vulcano produzem uma comparação interessante sobre a influência da madeira. O primeiro, também parceria com Dolce & Gabbana, é totalmente produzido em aço inox; parte do segundo envehece em barricas usadas por 14 meses. Ambos 100% Carricante safra 2022 – ambos já mostrando notas terciárias de petróleo.
-
Isolano Etna Bianco: 100% Carricante, vertical, fresco e mineral, sem barrica.
-
Sul Vulcano Etna Bianco: 100% Carricante, parte envelhecida em barricas usadas, mostra notas adocicadas e mais cremosidade.
-
Sul Vulcano Etna Rosso 2021: Nerello Mascalese com toques de Nerello Capuccio. Seus 14% de álcool são imperceptíveis no paladar. Taninos firmes e notas de frutas vermelhas e especiarias.
Vinhos que narram territórios
A degustação foi uma oportunidade para provar todas as regiões onde está a Donnafugata.
-
Floramundi Cerasuolo di Vittoria DOCG: Nero d’Avola e Frappato 70/30, fresco, suculento, notas de frutas vermelhas e especiarias. Um vinho leve, desses que se bebe mais frescos. Totalmente #meu número.
-
Mille e una Notte – edição Gattopardo: é o mais representativo dos tintos, produzido desde 1994, foi concebido por Giacomo Rallo que queria mostrar ao mundo o potencial da Nero d’Avola. Para isso, convidou o enólogo italiano Giacomo Tachis, o “pai” dos supertoscanos Sassicaia e Tignanello entre outros (o que originou o “vinho dos 2 Giacomos”). Blend com 90% de Nero d’Avola e pitadas de Petit Verdot e Syrah de Contessa Etellina. 14 meses de estágio em barricas novas. Uma mistura de Purple Rain e Red Velvet, que eu provei com chocolate de Modica – uma especiaria feita com técnica milenar que conserva cristais de açucar na massa que explodem n boca. Perfeito!
-
Ben Ryé 2022: O nome, “filho do vento” em árabe, homenageia a ilha “filha do vento”. Quando a uva Zibbibo é colhida, parte é distribuída em esteiras para secagem (apassimento” que é depois adicionada ao mosto, dando origem a um Passito de Pantelleria DOC. O Ben Ryé é o vinho doce mais premiado da itália – confira aqui.

Olho no futuro
Além do trabalho respeitoso e “mais que orgânico” nos vinhedos, duas outras inicativas da Donnafugata me chamaram a atenção (na verdade eles têm um programa de metas para o desenvolvimento sustentável alinhadas à Agenda UN 2030, mas aqui vou focar só nas 2 mais diretamente ligadas aos consumidores).
A primeira delas, a participação no programa SOStain que utiliza apenas garrafas totalmente produzidas na ilha a partir de reciclagem. Além de reduzir a pegada de carbono inevitável na utilização de vidro (produção e transporte), a iniciativa também alimenta a economia circular (o mesmo programa ao qual a Planeta é adepta).
A segunda iniciativa, totalmente nova para mim, foi o uso da Nomacorc Sea: um fechamento para vinhos (uma “rolha” sintética) feito com plástico coletado em áreas costeiras (e que se encaminhavam para os oceanos). O projeto é da Vinventions e a Donnafugata foi o primeiro produtor a usar as rolhas, em 2023.







