O Piemonte é frequentemente descrito como a terra da Nebbiolo. Mas essa definição é incompleta. A região é, na verdade, um mosaico de colinas, vilas e micro-terroirs onde cada produtor interpreta a uva – e às vezes ignora completamente a uva dominante – à sua própria maneira.

É provavelmente a mais “borgonhesa” das regiões italianas – no sentido da fragmentação do território em de crus específicos e prevalência dos monovarietais – e para alguns, nas semelhanças entre os vinhos tintos de Nebbiolo e Pinot Noir. E talvez essa afinidade tenha inspirado a importadora Tanyno a apostar na região. Juntamente com Champagne e Bourgogne (as regiões francesas preferem que a gente use a grafia original de seus nomes, em francês), o Piemonte é um dos pilares do portfólio, que conta com 19 produtores piemonteses.
No recém completado Giro del Piemonte, Guillaume Verger, proprietário da importadora catarinense, contou que queria trazer ao Brasil a oportunidade de passear pelas diversas faces da região através dos vinhos. O Giro passou por Curitiba e Rio de Janeiro antes de chegar a São Paulo. Foram jantares harmonizados, masterclasses e feirinhas.
A masterclass em São Paulo aconteceu no dia 05/03 e reuniu sete produtores do portfólio, criando um percurso que vai da Barbera revolucionária ao Barolo clássico, passando por crus históricos e projetos experimentais.
Os produtores
Braida Giacomo Bologna
O homem que colocou a Barbera no pedestal

Região: Monferrato / Barbera d’Asti
Vinho: Bricco dell’Uccellone 2021
Durante décadas, a Barbera foi considerada a uva “simples” do Piemonte. Isso mudou nos anos 1980 quando Giacomo Bologna decidiu tratá-la com a ambição normalmente reservada à Nebbiolo: seleção de vinhedos, rendimentos baixos e envelhecimento em barricas francesas.
O resultado foi o Bricco dell’Uccellone, lançado a partir da safra de 1982 e recentemente citado pela Forbes como um dos 10 vinhos que mudaram o mundo (matéria linda. Confira!). Um vinho que demonstrou que a Barbera podia ser profunda, estruturada e internacional – aqui apresentado por Giacomo Bologna (o neto!) – realmente uma honra.
Giuseppe Cortese
Rabajà em versão transparente
Região: Barbaresco
Cru: Rabajà
Vinho: Barbaresco Rabajà 2021
Rabajà é um dos crus históricos de Barbaresco, com encostas perfeitamente expostas que produzem nebbiolos de maturação equilibrada. A família Cortese é hoje uma das maiores proprietárias de vinhas nesse vinhedo, dividido com mais 6 produtores. O vinho é delicado e focado na pureza de aromas, pronto para beber já e oferecendo muito pelo preço.
Ca’ Viola
Pequena produção, ambição grande
Região: Barolo
Vinho: Barolo Caviot 2021
A Ca’ Viola é um produtor relativamente novo, mas com profundo conhecimento da região. Apenas 10mil garrafas desse Barolo são produzidas anualmente e mostra que, nas mãos certas, até meso um “entry level” da região já pode ser um vinho de grande complexidade.
Claudio Alario
A assinatura tânica de Serralunga
Região: Serralunga d’Alba
Vinho: Barolo Sorano 2021
Serralunga é frequentemente descrita como a subzona mais estruturada de Barolo. Os solos compactos e calcários costumam produzir vinhos de grande longevidade. Os taninos aqui são mais firmes. Foi interessante conhecer a história do produtor, que é sediado em Diano D’Alba e sempre acreditou e promoveu a região do Langhe. Ainda hoje dedica parte de suas terras à menos prestigiada Dolcetto – uva que costumava ser a força motriz do Piemonte antes do Barolo ganhar fama. Tive a oportunidade de provar na feirinha O Dolcetto Di Diano D’Alba Superiori Sori’ Pradurent e me encantei com a textura e aromas.
Conterno Fantino
A herança dos Barolo Boys
Região: Monforte d’Alba
Cru: Sorì Ginestra
Vinho: Barolo Ginestra Vigna Sorì Ginestra 2021
A Conterno Fantino pertence à geração que ficou conhecida como Barolo Boys, produtores que modernizaram o estilo da região nos anos 1980.
A propriedade possui cerca de 27 hectares e cultiva Nebbiolo, Dolcetto e Barbera.
O vinhedo Sorì Ginestra – um single vineyard com exposição sul – é um dos crus mais prestigiados de Monforte.
Os vinhos foram apresentados por Elisa Fantino, filha do Barolo Boy Guido Fantino, que me contou sua visão sobre o passado e o futuro do Barolo. Confira aqui.
Castello di Verduno
Elegância calcária e a uva “do futuro”
Região: Verduno
Cru: Monvigliero
Vinho: Barolo Monvigliero 2018
Verduno é uma das vilas mais elegantes de Barolo. O cru Monvigliero é famoso por produzir vinhos delicados e aromáticos, graças à forte presença de calcário nos solos. Aqui, uma maceração longa (mais de 70 dias) adiciona profundidade sem perder finesse. Uma dica do Marco, que nos apresentou os vinhos, foi a comparação com os Conterno Fantino. Ele comentou que as práticas de bodega são muito semelhantes, mas as posições geográficas muito distintas: Verduno está mais alto. Foi muito legal constatar como essa diferença se mostra na taça.
Mas talvez a história mais interessante da casa esteja fora da Nebbiolo.
O Castello di Verduno foi um dos produtores que ajudaram a resgatar a uva Pelaverga, quase desaparecida na região. Nos anos 1970 a vinícola começou a plantar novos vinhedos dessa variedade e incentivou outros produtores a fazer o mesmo. (vertdevin.com)
A Pelaverga produz vinhos leves, aromáticos e com acidez alta – característica que alguns produtores acreditam torná-la particularmente adaptada ao cenário de aquecimento climático.
Por isso, alguns já a chamam de “uva do futuro” do Piemonte.
Confira aqui minha conversa com Marco.
Rivetto
Biodinâmica e imaginação
Região: Barolo
Vinho: Barolo Leon Riserva 2018
A Rivetto segue um caminho menos tradicional: viticultura biodinâmica, diversidade agrícola e experimentação.
O Barolo degustado foi o mais denso da prova, com perfil mais gastronômico e menos aromático.
Mas foi depois da masterclass que o espírito da vinícola apareceu de forma mais clara.
Na pequena feira que seguiu o evento, a produtora apresentou dois vinhos que fogem do repertório clássico da região.
Nascetta em ânfora (estilo laranja)
A Nascetta é outra variedade piemontesa quase desaparecida que vem sendo resgatada. A Rivetto produz um varietal fermentado em ânforas, com maceração de cascas — um vinho branco de estilo laranja.
Espumante de Nebbiolo (Blanc de Noir)
Outro rótulo surpreendente é um espumante produzido com Nebbiolo pelo método tradicional, com 60 meses de autólise.
O detalhe curioso está no rótulo: um desenho do cacho indica que apenas os grãos da parte inferior são utilizados para o espumante. Essas uvas são colhidas mais cedo, preservando a acidez. O restante do cacho permanece amadurecendo e é usado em outros vinhos da casa.
Um Piemonte em miniatura
Em sete produtores, a masterclass conseguiu mostrar quase todo o espectro da região:
- a Barbera que virou vinho de prestígio
- a elegância de Barbaresco
- a estrutura tânica de Serralunga
- a delicadeza calcária de Verduno
- a nova geração biodinâmica
Tudo isso dentro de um território relativamente pequeno.
O Piemonte pode parecer dominado pela Nebbiolo, mas, na prática, é um arquipélago de estilos, cada colina falando uma língua própria.







