Ferroga 2023: o desafio de traduzir um terroir em vinho

Vinhedo Ferroga, em Los Chacayes

“É 70% água.” Imagine descrever assim a ex-modelo Claudia Schiffer. Ou Brad Pitt, eu acrescentaria. A informação está correta, observa o enólogo argentino Santiago Achával. É precisa. Mas diz muito pouco sobre a pessoa: por que sorri? Por que tem pressa? Com o que se emociona?

A comparação, feita durante o lançamento do Ferroga 2023 em São Paulo, resume uma das questões essenciais do vinho segundo Achával: como expressar em palavras aquilo que torna um vinho singular? Para o enólogo, a cada passo que damos em direção a uma linguagem que seja compreensível para o interlocutor, mais nos afastamos da verdadeira emoção que o vinho nos provocou: aquele aroma do pé de maracujá do quintal da nossa infância, o licor de jabuticaba que a mãe fazia..

Quanto mais aproximo a descrição de um vinho para uma linguagem que faça sentido para meu interlocutor, mais me afasto da emoção genuina que o vinho me provocou.
Santiago Achaval

O vocabulário técnico ajuda a descrever aromas, acidez, estrutura e taninos. Mas, quando tentamos tornar nossa experiência compreensível para os outros, necessariamente substituimos a emoção inicial por uma linguagem padronizada. Descrevemos o vinho com precisão, sem necessariamente transmitir o que sentimos. E assim traímos a verdadeira magia do vinho.

Para Achával, o mesmo desafio se apresenta na elaboração. Para ele um enólo espera que seu trabalho seja, primeiro, equilibrado. Então complexo, se possível também fresco e, para coroar o sucesso, expresse o lugar de onde vem. Terroir, em sua definição, é o diálogo entre natureza e homem. Não basta, portanto, ter um solo particular ou estar em uma região reconhecida. É preciso que algo daquele lugar sobreviva à transformação da uva em vinho.

Entender o lugar

É essa busca que orienta o trabalho de Achával na Ferroga, projeto familiar iniciado em 2011 em Los Chacayes, no Valle de Uco, Mendoza. O vinhedo, com quase seis hectares, apresenta solos aluviais formados pela dinâmica de dois rios, em uma área onde se encontram materiais de diferentes granulometrias.

Para investigar suas variações, conta que chegou a imprimir um mapa em grande formato e provar as uvas sobre ele, tentando relacionar suas percepções com cada parcela. O trabalho foi ganhando profundidade. A partir da safra 2023, a Ferroga passou a elaborar um único vinho, um corte de Malbec e Cabernet Franc. A proposta é que o rótulo seja um resumo do melhor que o lugar pode produzir, na mesma lógica dos primeiros vinhos de Bordeaux.

A safra, marcada por geadas tardias e temperaturas muito baixas na primavera, trouxe perdas de produção. Ainda assim, o enólogo avaliou positivamente a qualidade das uvas que conseguiu colher. Com 39 safras no currículo, conta que a indústria abusa do conceito de terroir. Estima que apenas 5 a 10% dos vinhos realmente sejam produtos únicos do lugar mas acredita que, em Ferroga, tenha conseguido.

Ferroga 2023 — notas de degustação

Traindo minhas emoções mais profundas ao provar o vinho, deixo aqui minhas impressões traduzidas para a linguagem técnica e padronizada dos vinhos: equilíbrio, frescor, aromas de frutas vermelhas. Elegante, fruto de extração suave – uma das marcas de Achával. Se traduz com fidelidade o lugar de onde vem, terei que acreditar em Santiago (ou visitar para confirmar!).

O vinho servido no lançamento havia passado três horas no decanter. Achával contou que, ao provar uma garrafa em março, encontrou um vinho que ganhou expressão ao longo dos oito meses seguintes.

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