Quando se fala em vinho grego, a primeira imagem que vem à cabeça de muita gente é quase sempre a mesma: brancos salinos de Assyrtiko, vinhas baixas contra o azul do mar Egeu, Santorini. Foi justamente o quanto essa imagem é só uma fração do que a Grécia produz hoje que ficou evidente na degustação dos vinhos da Domaine Costa Lazaridi, conduzida por Thiago Mendes, diretor e cofundador da EnoCultura.
A associação de Grécia e vinho de ilha é praticamente mandatória. O extenso litoral (quase o dobro do brasileiro, apesar do território 15 vezes menor) pipocado de praias paridisíacas povoa as “listinhas” dos turistas enquanto as imagens dos koulouri – videiras enroladas em formato de cestos para proteger as uvas do vento marítimo – povoam as aulas e masterclasses sobre vinhos gregos (e essa não foi diferente).
Koulouri (κουλούρι) significa, literalmente, algo relacionado a forma circular/rosca, e é usado na Grécia para alimentos em formato de anel -especialmente o pão/bagel grego coberto de gergelim, muito comum no café da manhã.
Nos vinhedos, os gregos desenvolveram essa técnica de conduzir as videiras em formato de cesto, de modo que os frutos fiquem no interior, protegidos dos ventos ferozes. A técnica é também chamada kouloura (ou koulouri).

Sim, Thiago começou sua apresentação destacando as similaridades entre a Grécia e o Rio de Janeiro – sede da GRK, importadora responsável por trazer os vinhos da Domaine Costa Lazaridi para o Brasil – e mostrando uma foto de koulouri (que não resisti a trazer aqui também, afinal essa é de fato uma evidência deliciosa e curiosa da engenhosidade humana quando o assunto é produzir vinhos em lugares impossíveis). E imediatamente nos transportou para o continente montanhoso. Mais precisamente para Drama, onde fica a Domaine Costa Lazaridi.
De Santorini para Drama
Foi no norte da porção continental do país, na Macedônia Oriental, que Costa Lazaridi plantou as primeiras videiras no final dos anos 1970. Eles contam que foi o primeiro vinhedo moderno da região de Xiropotamos, nas encostas do Monte Falakro. A Domaine Costa Lazaridi, como empresa, nasceu em 1992, em Adriani, depois que Costa seguiu seu próprio caminho empresarial. Hoje é um dos produtores mais estabelecidos do país, certificado em agricultura regenerativa e com um portfólio que abraça uvas gregas e internacionais. Esse abraço é estratégico, contou Antonis Papadopoulos, Export Manager da vinícola.
A imensa variedade de uvas autóctones gregas – mais de 300 segundo o Wines of Greece – é ao mesmo tempo um trunfo e um fardo. Enquanto a perspectiva de provar varietais de Agiorgitiko ou Malagousia anima enófilos engajados, tende a afastar aqueles iniciantes ou menos aventureiros. Por isso a vinícola aposta em blends.
Um vinho com Xinomavro no rótulo tem poucas chances de ser escolhido na prateleira ao lado de um Cabernet Sauvignon. Já um blend de Xinomavro e Cabernet Sauvignon soa muito menos exótico e ameaçador, conta Antonis. O blend tem ainda a vantagem de atuar como porta de entrada – tanto para o produtor quanto a uva. O 100% Xinomavro parecerá muito mais confortável na próxima vez.

Os vinhos que chegam por aqui
Esse é o caso do Okeanos, que combina Sauvignon Blanc e Malagousia num resultado que parece familiar à primeira vista, mas intriga o paladar pela mineralidade.
Na linha 100% autóctone a linha Chateau Julia se destaca. O varietal de Assyrtiko na versão branca é suculento e longo; na versão tinta a Agiogirtiko apresenta notas de cereja e especiarias. Para os menos dispostos a se aventurar, o Amethystos Cava Rouge é uma boa aposta: a expressão da nossa velha conhecida Cabernet Franc no terroir grego é contida e surpreende.
Outra surpresa, essa mais cultural, foi o termo “cava” num vinho tinto grego. Cava é mais conhecido como uma denominação de origem de espumantes espanhóis. Aprendi que a lei grega estabelece Cava (Κάβα) como uma indicação tradicional de envelhecimento para determinados vinhos gregos tranquilos. São 2 anos para os brancos, sendo pelo menos 6 meses em barris de madeira e 6 meses em garrafas, e 3 anos para os tintos, sendo um mínimo de 6 meses em barris novos ou 12 meses em barris usados, e 2 anos em garrafa.
Finalizamos a degustação com uma eau-de-vie. O Methexis Assyrtiko é um destilado de vinho Assyrtiko bastante aromático e delicado, apesar dos 40% de álcool. Imagino que ficaria muito bom num coquetel com água tônica e limão.

