O vinho que o Brasil rejeitou antes de a França premiar

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foto do premio do Censurato na Viniales

Uma cena recorrente explica muito da história do vinho brasileiro. Ela acontece numa degustação qualquer, dessas em que pessoas giram taças com seriedade, falam sobre frutas negras, madeira, persistência e mineralidade. Primeiro, o vinho é servido às cegas. As opiniões aparecem rápido: elegante, estruturado, surpreendente. Um dos melhores da mesa.

Quando a origem é revelada, a surpresa: Paraná.

E o clima muda.

Essa história se repetiu mais de uma vez com esse vinho paranaense. Até que a provocação acabou virando nome.

Censurato.

A vinícola Franco Italiano sabia que tinha em mãos um bom produto. O probleama era vencer o preconceito. Imaginaram que um concurso internacional poderia ser um bom lugar para testar essa teoria: para os gringos “Brasil” já é suficientemente exótico e “Paraná” um detalhe que passaria despercebido. A degustação às cegas também jogaria a favor.


Graças a essa persistência teimosa, um dos rótulos acaba de se tornar o único vinho brasileiro a conquistar três medalhas de ouro no Vinalies Internationales, concurso organizado pela União dos Enólogos da França e reconhecido pela OIV, a principal entidade internacional do setor. Em 2026, a competição reuniu 2.654 amostras de 44 países e 107 jurados de 31 nacionalidades. (Folha de S.Paulo)

vista da vinicola franco italiano
Vinícola Franco Italiano – divulgação

Há algo de simbólico nessa trajetória. O vinho brasileiro passou décadas tentando convencer o próprio Brasil de que poderia ser levado a sério. O único setor produtor – a Serra Gaúcha – conquistou algum reconhecimento com espumantes mas os vinhos tranquilos ainda eram considerados menores. O resto do país nem participava da conversa.

Esse cenário vem mudando rapidamente nos últimos anos. O principal agente transformador foi uma técnica que permitiu enganar o tempo. Com a dupla poda, os produtores conseguem alterar o ciclo da videira, fazendo com que a colheita evite do verão chuvoso e ocorra no inverno (saiba mais). Graças à técnica, vinhos de origem “exótica” estão pipocando por todo o país, com destaque para os estados de São Paulo e Minas Gerais – Roteiro de vinhos na Mantiqueira.

Mas a história no Paraná é diferente. A forte influência européia pela vinda dos imigrantes sempre motivou a tradição da produção e consumo de vinho. O vinho de mesa – aquele de uvas não viníferas, frutos das videiras mais robustas e resistentes ao clima chuvoso do sul – conheça as diferenças. A própria Franco Italiano começa assim.

Nascida distante do universo aspiracional do vinho fino, a história começa no fim do século XIX, quando famílias francesas e italianas chegaram ao Brasil trazendo a tradição do vinho caseiro. Durante décadas, a vinícola produziu vinhos de mesa. Só em 2005 a quarta geração decidiu investir seriamente em vinhos finos.

O caminho escolhido não foi o da dupla poda. As uvas para a produção dos vinhos finos vêm de Dois Lajeados na Serra Gaúcha. Tecnicamente é um vinho do Rio Grande do Sul, como cerca de 80% da produção nacional. Ainda assim, bastava a palavra “Paraná” aparecer para parte do preconceito entrar em cena. Talvez porque, no vinho, reputação seja quase tão importante quanto qualidade.

E reputação demora.

Demora mais ainda quando o assunto é vinho brasileiro. Existe uma espécie de complexo de subdesenvolvimento etílico no país: a crença persistente de que o bom sempre vem de fora e que excelência nacional é exceção, nunca possibilidade natural.

Por isso a história do Censurato talvez fale menos sobre uma medalha e mais sobre uma mudança de percepção.

Hoje, o mapa do vinho brasileiro já inclui Serra da Mantiqueira, Chapada Diamantina, Planalto Catarinense, Campanha Gaúcha e novos projetos espalhados pelo país. O centro de gravidade continua no Rio Grande do Sul, mas a geografia começou a se mover.

No meio dessa transformação, uma vinícola na grande Curitiba acabou conseguindo algo que nenhum outro rótulo brasileiro tinha conseguido antes.

E talvez a parte mais difícil nem tenha sido ganhar da França.

Talvez tenha sido convencer o Brasil.

Serviço
A Franco Italiano é um dos polos de enoturismo do Paraná. Em Colombo, na região metropolitana de Curitiba, a vinícola oferece:

• visitas guiadas pelas instalações
• degustações
• experiências de blending, em que o visitante cria o próprio vinho
• e um wine garden voltado ao consumo de vinhos e tábuas de frios

Mais informações: francoitaliano.com.br

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