Vinhos de Lisboa: entre Bucelas e Carcavelos, um lado pouco conhecido de Portugal

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Em degustação promovida pela Vinhos de Lisboa em São Paulo, os brancos minerais de Bucelas e o raro fortificado Carcavelos mostraram a diversidade histórica e atlântica da região portuguesa.

Entre vinhos atlânticos e fortificados raros, Lisboa revela um lado pouco conhecido de Portugal

A região dos Vinhos de Lisboa costuma passar despercebida para os brasileiros, geralmente ofuscada pelo peso simbólico do Douro e do Alentejo. Uma pena, já que ali, tão pertinho da capital, ficam algumas das regiões demarcadas (DOC) mais históricas e tradicionais do país.

É esse misto de história, conveniência e qualidade que a Comissão Vinhos de Lisboa quer mostrar com as degustações que vem promovendo no Brasil. ‘Descobrir. Provar. Ficar’ é o tema do road show percorrendo algumas capitais brasileiras.

Terroir da modernidade

Durante muito tempo, a imagem do vinho português no exterior ficou concentrada em tintos potentes, madeira nova e regiões quentes do interior do país. Lisboa opera no sentido contrário.

A proximidade do Atlântico, com suas brisas frescas, proporciona aos vinhos da região de Lisboa um caráter muito buscado nos vinhos modernos, em tempos de aquecimento global. Mais acidez, menos peso e uma tensão que raramente aparece no imaginário mais popular sobre Portugal.

Nas zonas mais protegidas por montanhas, castas internacionais podem produzir os vinhos mais encorpados que parte do mercado ainda busca. Um rol próprio de castas autóctones, com destaque para a Arinto e as peculiares Rabo de Ovelha e Esgana Cão (essa última já começa a ser produzida em forma varietal), chama cada vez mais atenção num mundo cuja curiosidade já não se contenta com castas francesas.

Essa diversidade é justamente um dos pilares da região. Segundo a comissão dos Vinhos de Lisboa, são nove denominações de origem espalhadas entre mar e serras, formando um mosaico de estilos bastante heterogêneo. Não existe um único “vinho de Lisboa”. Existe uma coleção de microclimas, castas e tradições muito diferentes entre si, a poucos minutos do centro urbano (e até dentro dele, como veremos a seguir).

Tão perto. Tão improvável

Foi justamente essa proximidade, que hoje soa tão atraente para quem busca opções de enoturismo próximos à capital, que quase custou sua existência. Para nossa sorte, no entanto, o mundo do vinho conta com motivações que parecem não se aplicar a outras indústrias.

Como mais, senão por amor, explicar a manutenção de vinhas com produção baixíssima, 0,5 a 1kg/planta (para vinhos finos de qualidade superior, trabalha-se por volta de 5kg/planta) em Colares, com alguns dos terrenos mais caros e cobiçados do litoral lisboeta?

São apenas cerca de 20 hectares que carregam também o peso de ser um dos únicos redutos europeus a sobreviver ao ataque devastador da filoxera no século XIX. Lamentavelmente, ainda não foi dessa vez que provei um Colares DOC, mas tive a oportunidade de conhecer (e provar!) um vinho tão histórico quanto, de uma DOC ainda menor: o Carcavelos DOC. Mas antes de falar dele, preciso falar sobre Bucelas e a Arinto.

Bucelas e a força da Arinto

Uma das grandes castas brancas de Portugal atualmente, a Arinto é mais uma das “velhas novidades” do país. Capaz de manter acidez mesmo em climas mais quentes, produzindo vinhos tensos e longevos, é nos solos calcáreos e brisa atlântica de Bucelas que a casta encontrou as condições que a tornaram histórica.

Há referências recorrentes de que os vinhos de Bucelas eram apreciados pela aristocracia britânica. Em Henry VI, de Shakespeare, aparecem associados ao ‘charneco’ – um sinal do prestígio que esses brancos portugueses alcançaram muito antes da ascensão contemporânea dos vinhos atlânticos. Hoje, quando o mercado redescobre acidez, frescor e vinhos menos marcados por maturação excessiva, o Arinto de Bucelas parece menos uma novidade e mais uma região que estava séculos adiantada.

O Arinto de Bucelas teria sido meu vinho preferido da noite, não fosse por uma outra expressão de Arinto apresentada. Novidade para mim. Notícia velha para o mundo.

Carcavelos, o vinho que quase desapareceu

O Carcavelos é mais um representante da categoria de vinhos portugueses que quase desapareceram no século XX. Produzido entre Oeiras e Cascais, nos arredores de Lisboa, nasceu como um vinho fortificado de prestígio internacional impulsionado pelo Marquês de Pombal, que o produzia. Era muito apreciado pela aristocracia inglesa e exportado para diversos mercados do Império Britânico.

Aí veio (de novo) a expansão urbana da região e quase destruiu tudo. Carcavelos foi lentamente engolido pelo crescimento imobiliário da costa lisboeta até quase desaparecer.

A virada começou quando a Câmara Municipal de Oeiras decidiu que esse vinho era patrimônio histórico e cultural da região. O município passou a recuperar vinhas históricas, parte delas associadas à antiga Quinta do Marquês de Pombal, hoje conhecida como Palácio Marquês de Pombal através do projeto Villa Oeiras.

Apesar de haver outros produtores, praticamente toda a visibilidade internacional do Carcavelos passou a depender do Villa Oeiras. Hoje, a própria existência do vinho depende dessa combinação incomum entre memória, política pública e preservação territorial.

E a base do Carcavelos? Arinto e sua acidez.

Um fortificado atlântico com dupla DOC

Provamos o Villa Oeiras superior, deliciosamente apresentado por André Teodoro, da Comissão de Vinhos de Lisboa.

Á base de Arinto, principal responsável pela marcada acidez, somam-se pitadas de Galego Dourado e Ratinho – duas variedades sobreviventes que contribuem para a textura e estrutura. O vinho é fortificado com aguardente da DOC Lourinhã, tornando-o, segundo Teodoro, o único vinho com dupla DOC do mundo.

A DOC Lourinhã também tem seu charme. Localizada ao norte de Lisboa, na faixa atlântica da região dos Vinhos de Lisboa, é dedicada exclusivamente à produção de aguardente vínica envelhecida. Sua qualidade é comparada a Cognac e Armagnac, na França, mas as variedades de uva – Tália (Ugni Blanc), Malvasia Rei, Alicante Branco e São Empreado e salgada influência atlántica a tornam única.

Após a fortificação, o Carcavelos passa por envelhecimento oxidativo e adquire notas de mel, nozes, casca de laranja e salinidade. A acidez marcada o faz diferente dos outros estilos de fortificados. Muito mais leve e com aromas cítricos, harmonizou perfeitamente com o tiramissú.

É um vinho de resistência. Desses que tanto fazem falta hoje em dia.

Lisboa além dos clichês do vinho português

No fim, talvez essa seja a melhor forma de entender os Vinhos de Lisboa. Não como uma região de identidade única, mas como um território moldado justamente pela diversidade. Entre brancos minerais de vocação atlântica e fortificados históricos que quase viraram peça de museu, Lisboa mostra um lado de Portugal muito menos óbvio – e talvez muito mais interessante.

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