Rio Manso apresenta vinhos e aposta na brasilidade para construir uma identidade na Mantiqueira

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A Serra da Mantiqueira já não precisa provar que consegue produzir bons vinhos. Depois de anos de experimentação e da consolidação da viticultura de inverno, a região passou a enfrentar uma questão diferente: como construir uma identidade própria.

A Rio Manso parece ter encontrado sua resposta.

Os primeiros vinhos da nova vinícola mineira foram apresentados em um almoço que reuniu tucupi, vatapá, torresmo, carne de sol, bacuri e uma coleção de rótulos inspirados na fauna local. Em vez de recorrer a castelos, brasões ou símbolos importados, o projeto escolheu olhar para a paisagem ao redor dos vinhedos.

O resultado é uma proposta que busca combinar castas internacionais com referências profundamente brasileiras.

Uma nova fase para a Mantiqueira

Localizada entre Minas Gerais e São Paulo, a Rio Manso surge em um momento de transformação da Serra da Mantiqueira.

Se há pouco mais de uma década o desafio era demonstrar que a região poderia produzir vinhos de qualidade, hoje a discussão parece ter avançado. A reputação construída por diferentes produtores abriu espaço para uma nova etapa, em que a diferenciação passa menos pela técnica e mais pela identidade.

É nesse contexto que nasce a Rio Manso.

O projeto reúne vinhedos, gastronomia, hospitalidade e turismo, acompanhando uma tendência observada em algumas das mais importantes regiões vinícolas do mundo. Mas o aspecto mais interessante da vinícola talvez esteja na narrativa escolhida para apresentar seus primeiros rótulos.

Tucanos, seriemas e onças entram na história

Antes mesmo da apresentação dos primeiros vinhos, Ricardo Faria, um dos idealizadores da Rio Manso, já havia afirmado em entrevista à Bloomberg Línea: “a gente tem uma identidade. A gente não precisa ser uma réplica da Toscana”. Toda a identidade visual na Rio Manso remete ao Brasil, explicou a CEO do projeto Aline Mabel, durante a apresentação dos vinhos.

Cada rótulo conta uma história: o rosé que celebra o ritual de acasalamento do Tangará (Dança do Tangará), a revoada dos tucanos que competem com o homem pelas uvas (Voo do Tucano), o furtivo lobo guará que aparece na calada noite (Visita do Lobo), a onça (Olhar da Onça) as cobras (Rastro da Urutu). Aline contou que toda a ambientação e mobiliário do wine bar, restaurante e futuros chalés prioriza artistas locais.

Com o almoço de lançamentos dos vinhos não poderia ser diferente.

A identidade da vinícola também apareceu à mesa

O restaurante escolhido – Vista Ibirapuera – é famoso pelo menu especializado em ingredientes brasileiros. As harmonizações propostas pelo sommelier Manoel Beato foram certeiras.

O instigante Dança do Tangará – um rosé composto por Syrah, Pinot Noir e Chardonnay da safra 2025 – com seus aromas salpicados de gengibre encarou a acidez do ceviche de peixe fresco, tucupi e chips de batata-doce. A leve picância do prato foi suavizada pela cremosidade do vinho.

O Chardonnay Sombra do Jequitibá é austero, uma versão mais cítrica da uva apimentada pelos 10% de Viognier e o estágio parcial em barricas. A harmonização com camarão empanado e vatapá deu surpreendentemente certo. Vale também destacar que ambas as uvas, assim como a Pinot Noir do próximo vinho, são inéditas na região. Aline mencionou que o cultivo da Viognier foi é um grande desafio.

O recém engarrafado (2 dias!) Passo da Seriema, combinação de Pinot Noir (80%) e Cabernet Franc, estava delicioso. Digno de um “para beber de litros” do crítico chileno Patricio Tapia, tem pureza de fruta, é leve e suculento.Encontrou um parceiro improvável em torresmo com picles e mostarda Dijon.

O Voo do Tucano, 100% Syrah 2024 sem passagem por madeira, é fresco e frutado. Achei interessante que, apesar de a enologia estar a caro de Cristian Sepúlveda – responsável pela maioria dos projetos da região – os vinhos da Rio Manso mostram identidade própria. Aline explicou que ela e os sócios são muito atuantes durante o processo e têm claro o perfil buscado. A harmonização com carne de onça marinada ao molho de tomate assado com Jerez foi, de novo, certeira.

Para os pratos principais passamos aos vinhos barricados. O Visita do Lobo, Syrah 2024 com 12 meses em carvalho francês, acompanhou pernil de cordeiro, pirão de leite e salada de feijão manteiguinha. Com 14% de alcool, os aromas são de frutas vermelhas compotadas mas com surpreendente elegância.

O Cabernet Franc Rastro da Urutu é um bom exemplo do grande potencial da variedade na região. Aos aromas de frutas vermelhas somam-se pitadas de especiarias. Foi servido com fregola, pato braseado, cogumelos e demi-glace.

Ainda foi apresentado o Olhar da Onça, corte de Syrah, Cabernet Franc e Viognier da safra 2023 que já havia sido premiado com medalha de ouro no Viniales 2026. A harmonização foi com carne de sol de Angus, terrine de mandioca, salada fria de feijão manteiguinha e bernáise de manteiga de garrafa. Tive que sair antes do final e acabei perdendo essa prova.

Mais do que vinhos, uma narrativa de origem

Os primeiros rótulos da Rio Manso ainda estão começando sua trajetória comercial. Como acontece com qualquer nova vinícola, será o tempo quem definirá seu lugar entre os produtores mais relevantes da Mantiqueira.

Mas o lançamento deixou uma impressão clara.

Enquanto muitas regiões vinícolas do Novo Mundo construíram sua reputação reproduzindo modelos já consagrados, a Rio Manso parece interessada em seguir outro caminho. Seus vinhos nascem de castas internacionais, mas procuram dialogar com elementos que pertencem ao território onde são produzidos.

Tucanos, seriemas, onças, tucupi, vatapá, bacuri, mandioca e feijão manteiguinha dividiram espaço com Syrah, Cabernet Franc, Pinot Noir e Chardonnay.

Mais do que uma coleção de rótulos, a Rio Manso tenta criar uma conexão direta entre os vinhos e o lugar onde são produzidos. E, em uma região que já provou sua capacidade de produzir bons vinhos, talvez essa seja a discussão mais interessante.

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