Você conhece Barolo e Brunello. Mas conhece esta Itália?

Entre Pignoletto, Timorasso, Lagrein e Nasco, o I Love Italian Wines revelou uma Itália de pequenos produtores, castas pouco conhecidas e vinhos que ainda procuram seu lugar no Brasil

Masterclass Descobertas e raridades – I Love Italian Wines 2026 / crédito: Gladstone Campos

Qualquer amante de vinhos conhece, pelo menos de ouvir falar, os grandes clássicos italianos. Barolo, Barbaresco, Brunello di Montalcino, Amarone, Chianti… Todos tintos. Muitos ótimos. Mas se limitar a esse pequeno universo no país com o maior número de variedades de uvas autóctones e que produz vinho em todas suas 20 regiões sempre pareceu, a essa enocuriosa que vos escreve, um grande desperdício.

Foi com esse espírito desbravador que me dirigi ao I Love Italian Wines na semana passada.

O I Love Italian Wines é um roadshow anualmente promovido pela ICE – Agência para a Promoção no Exterior e a Internacionalização das Empresas Italianas. Esse ano se expandiu, passando por Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo e, pela primeira vez, Curitiba. Eu fui à edição paulista, que abriu com uma masterclass que parece ter sido desenhada sob medida para mim: Descobertas e raridades: novos produtores e denominações inéditas.

Após a masterclass, um giro pelo salão, que reuniu cerca de 60 expositores e aproximadamente 600 rótulos, me deu novas oportunidades para explorar essa Itália que costuma ficar escondida atrás de seus grandes nomes. De fato, foram justamente os vinhos que eu conhecia menos que ficaram na memória com mais força. Aqui vai uma pequena amostra.

Começando pelo Pignoletto

O primeiro vinho da masterclass, escolhido pelo experiente Jorge Lucki, já mostrou que teríamos uma tarde das mais interessantes. O Ribelle Pignoletto Brut, da Cantina Messori, é produzido com a uva branca Pignoletto, típica da região de Modena na Emilia-Romagna. Por lá é muito popular, mas virtualmente desconhecida pelos brasileiros.

E como nada nunca é simples quando falamos em variedades de uvas, a Pignoletto também é conhecida como Grechetto Gentile, embora não tenha nenhum parentesco com a famosa Grechetto da Umbria.

O vinho foi apresentado num português impecável por Elena Messori, quem decidiu começar a vinificar as uvas que a família produzia há anos. Trata-se de um espumante elaborado pelo método Charmat (aquele em que as bolhas nascem nos tanques e não nas garrafas – para saber mais sobre o processo, ouça este episódio), com intenso aroma de brioches e amendoados.

Mais tarde, no walk around, conheci também seu perfumadíssimo Lambrusco Reggiano DOC. É lambrusco sim, mas de qualidade indescritivelmente superior ao mar de Lambruscos IGT baratex que nos inunda. Esse é elaborado 100% com a uva Lambrusco Salamino (que leva esse nome, dizem, pois o formato de seus cachos lembra salaminos – os salames artesanais). Escuro, denso, com acidez que equilibra seu dulçor tornando-o quase imperceptível e ótimo para acompanhar refeições. Para completar, Elena me mostrou um pet-nat 100% Lambrusco Grasparossa. Esse ainda mais escuro, intenso e seco, perfeito para gastronomia.

Enquanto os vinhos da Messori não chegam ao Brasil, outros bons exemplos de Lambrusco (do bom!) podem ser encontrados no portfólio da importadora Decanter.

O Piemonte que não termina no Barolo

Do Piemonte, os Barolos e Barbarescos estavam, naturalmente, bem representados. Embora eu estivesse determinada a provar apenas uvas pouco conhecidas, confesso que não resisti ao ver a mesa da Cantina Taverna vazia. Afinal, Barbarescos sempre têm lugar garantido no meu coração e na minha taça. Mas a surpresa ficou por conta do Langhe Rosato.

Ao falar sobre a diversidade e qualidade dos vinhos sendo apresentados no road show, Lucki havia comentado sobre um vinho de produção limitadíssima – 900 garrafas – que o havia surpreendido tanto pela qualidade quanto por ter sido trazido para a mostra. Fiquei curiosa, claro, mas não tinha muita esperança de encontrar essa joia em meio aos 600 rótulos sendo apresentados no salão. Dei sorte!

A Cantina Taverna é minúscula. Fica em Neive, região piemontesa especialista em Barbaresco, e produz cerca de 10 mil garrafas por ano. Todos os vinhos me pareceram deliciosos, mas esse rosé estava especial: corpo cremoso, acidez na medida e intensos aromas de frutas vermelhas. 60% Nebbiolo e 40% Pinot Noir. Perfeito equilíbrio de secura e frescura que, claro, não vem barato: cerca de 30 euros lá. Espero que tenha encontrado o importador que buscava.

Meu primeiro Timorasso

A próxima parada da minha listinha foi a mesa da importadora Cecconello. Outra dica de Lucki. Ao apresentar o segundo vinho da masterclass como seu “xodozinho” – o Petite Arvine Chatel Argent 2024, da vinícola familiar Grosjean – Jorge Lucki também comentou sobre outro vinho do portfólio da importadora, de uva Fumin, que estaria sendo apresentado no salão e que valia a pena conhecer.

A Petite Arvine não é uma variedade italiana. Nasceu na Suíça. Mas cruzou os Alpes e se adaptou muito bem no montanhoso Valle d’Aosta. O Chatel Argent, o vinho da masterclass, vem de uma área alta e fria mas num vinhedo totalmente face sul, muito exposto ao sol. O vinho tem notas acentuadas de frutas bem maduras, com destaque para toranja, e um final realmente longo.

E o vinho de Fumin? Não lembro. Confesso que me perdi no stand da Cecconello. Apesar de estar mais concorrido do que eu costumo encarar nesses eventos, valia a pena cada minuto. Dentre os muitos rótulos deliciosos que conheci lá (inclusive 2 Verdicchio dei Castelli di Jesi, que todo entendido costuma torcer o nariz e quase não se vê por aqui, mas eu adoro), tive a glória de provar ali meu primeiro Timorasso.

Desde que produzi o episódio do podcast sobre os vinhos brancos do Piemonte (ouça aqui) fiquei obcecada por essa uva. Nunca tinha encontrado no Brasil, e esse ano, durante as férias, comprei uma garrafa para trazer. Mas ainda não tinha provado!

A variedade branca do Piemonte foi quase esquecida. Ganhou importância sobretudo na região de Colli Tortonesi no final dos anos 1980 após ser resgatada por Walter Massa. Havia menos de 0,5 hectare plantado. Hoje é uma das uvas italianas que despertam mais interesse justamente por sua capacidade de produzir brancos com estrutura e potencial de envelhecimento. A Wine Enthusiast chegou a chamá-la de “Barolo branco”. Agora que já provei, terei mais serenidade para esperar minha garrafa envelhecer!

Bem-vindos à Knolseisenland

E então chegamos ao Alto Adige.

Eu costumo brincar que o Alto Adige é a Knolseisenland, a “terra dos Knolseisen”, porque é de lá que vem a família do meu marido – e origem do meu sobrenome. Há algum tempo tenho estado de olho nos brancos feitos por aqui, especialmente de Pinot Grigio no estilo ramato (cobre ou laranja), mas os tintos da autóctone Lagrein têm ganhado espaço na minha adega. E não só na minha.

Provei Lagrein pela primeira vez durante uma viagem pela região. Não foi uma boa experiência. Ano passado, no road show da Gambero Rosso, me deparei novamente com um exemplar e a experiência dessa vez foi ótima. Agora de novo!

A Lagrein é considerada geneticamente “prima” da Syrah e “neta” da Pinot Noir. A literatura fala em “excessivamente tânica” mas essa não é minha experiência – que ok, não é das mais vastas. O vinho que eu havia provado na Gambero Rosso (da Cantina Kurtatsch) me pareceu um tinto leve e elegante. Assim como esse da Cantina Terlan que provei no I Love Italian Wines.

A Cantina Terlan é uma cooperativa e, segundo Jancis Robinson produz vinhos brancos impressionantes. Me parece que Jancis não é muito fã de Lagrein, mas preciso concordar com ela sobre os brancos, especialmente o Pinot Grigio. Ok, essa não é uma variedade diferentona – pelo contrário, rios de Pinot Grigio chegam por aqui – mas com essa qualidade x preço vale o destaque.

Lagrein – Cantine Terlan
A minúscula Cantine Taverna e o rosato que me encantou

Sardenha – nem Monica nem Vermentino. Nasco!

Outros – no plural mesmo – grandes aprendizados vieram da Sardenha. Aquela ilha italiana famosa por seu queijo com larvas (e pelas praias lindas!).

Como não poderia deixar de ser, um belo Vermentino di Sardegna foi devidamente provado e aprovado. Também um Monica di Sardegna – da uva Monica, cujo nome sempre me intrigou. No stand da Cantine Dolianova me contaram a história do nome curioso. Segundo o site de agricultura da Região Autônoma da Sardenha, o termo “Monica” deriva da palavra italiana monaco (monge), em referência aos monges camaldoleses que a teriam trazido (nem se imagina de onde) no século XI. O site também apresenta outra versão, que atribui a introdução da variedade aos espanhóis na época em que a Sardenha era parte do Reino de Aragón, dizendo que de fato, “em algumas partes da ilha” a uva é chamada Monica di Spagna. Segundo o Oxfor Companio to Wine, análises de DNA reforçam a versão da origem espanhola.

Controvérsias à parte, o que me surpreendeu mesmo foi um varietal de uva Nasco. Oi?? Apesar de eu nunca ter ouvido falar nessa uva, ela não é uma completa desconhecida. Consta no Oxford Companion of Wine, mas assim “Nasco, antiga videira de bagas brancas que produz vinhos brancos macios em menos de 100 hectares ao redor de Cagliari, na Sardenha.” – acho que não dá pra dizer que se saiba muito sobre ela…

O nome Nasco vem da palavra sarda antiga nascu, que se traduz literalmente como “almíscar” ou “perfume de musgo”. O nome foi dado porque a uva madura possui um bouquet aromático intensamente perfumado e supostamente inconfundível. Acredita-se que tenha chegado à Sardenha trazida pelos fenícios.

Cada vez tenho menos dúvidas: é perfeitamente possível passar a vida inteira estudando vinhos italianos!

E a Sicília terminou em Pantelleria

Para terminar meu rolê pela Itália do fora óbvio, um vinho de Zibibbo! Uma uva não tão “fora do óbvio” (é a boa velha Moscatel de Alexandria), mas um vinho que definitivamente encerra qualquer noite com chave de ouro: o Ben Ryé.

O Filho do Vento (tradução do árabe ben ryé) é um passito de Pantelleria premiadíssimo. Um dos vinhos brancos italianos mais prestigiados e que conheci na visita que fiz à vinícola Donnafugata no Etna, embora esse vinho especificamente venha de bem longe de lá, da ilha (da ilha) de Pantelleria, onde as videiras precisam ficar rasteiras e enterradas para se proteger do vento, numa forma de cultivo chamada Alberello Pantesco (vite ad alberello), reconhecido pela Unesco como patrimônio imaterial da humanidade. Segundo a organização, esse é um “exemplo extraordinário de agricultura heroica criado para fazer a vida prosperar em condições extremas de solo vulcânico, ventos violentos e quase nenhuma água doce”. Contei mais sobre ele aqui.

Passito de Pantelleria: um vinho para tomar de joelhos (como se colhe as uvas!) / crédito: National Geografic

Devido a essa forma de cultivo, nenhuma mecanização é possível e as uvas em Pantelleria precisam ser colhidas de joelhos. Me parece uma justiça poética que o vinho que se produza com elas mereça ser bebido, também, de joelhos. Uma preciosidade dourada e deliciosa com notas de mel e amêndoas.

Para quem quiser provar por aqui, o Ben Ryé está disponível no portfólio da World Wne.

A Itália que ainda falta descobrir

Grande parte do que provei no I Love Italian Wines ainda não tem importador no Brasil e a parte que chega por aqui ainda é bastante desconhecida, inclusive entre profissionais (e olha que eu estudo a beça!). A ideia do road show, segundo a ICE, é justamente ajudar essa aproximação. Barolo, Barbaresco e Brunello continuam com lugar garantido na minha taça (o Barbaresco da Taverna que o diga!). Mas depois dessa tarde de aprendizados a garrafa de Timorasso que trouxe das férias foi ressignificada: agora sei o que estou esperando envelhecer.

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