Odfjell muda o jogo: nova estratégia traz vinhos premium a preços surpreendentes

No comments exist
Fran Palacios, enóloga à frente da Viña Odfjell

A vinícola chilena Odfjell, conhecida por seus vinhos de perfil elegante e sustentável, inaugura uma nova fase no Brasil. Se antes seus rótulos chegavam ao país por meio de uma das maiores importadoras nacionais, agora a estratégia muda: a casa de raízes norueguesas passa a atender diretamente mercados que realizam importação própria. Na prática, isso significa menos intermediários e preços ainda mais competitivos para o consumidor final – um movimento raro no universo dos vinhos premium.

Para apresentar essa mudança e as novas safras, a vinícola reuniu jornalistas e convidados em um almoço no charmoso Plou, em São Paulo, com harmonizações assinadas pela chef Analu Torres. Quem conduziu a apresentação foi a jovem enóloga Fran Palacios, que desde 2020 imprime frescor e criatividade ao portfólio da Odfjell.

Todo o frescor de San Antonio

O primeiro vinho a ser servido foi o Armador Sauvignon Blanc 2025. Feito com uvas biodinâmicas adquiridas da parceira Viña Matetic (referência na produção dessa variedade, com o delicioso EQ Sauvignon Blanc, bem mais caro). O vinho surpreende pela concentração de sabores e pureza aromática. Com corpo inesperado, resultado do trabalho de batônnage e tempo sur lie na vinificação, tem vigor refrescante e final longo. Deve chegar ao consumidor por R$79,90 – um custo-benefício imbatível no mercado brasileiro.

Linha Orzada: navegando contra o vento

A linha Orzada – que significa “navegar contra o vento” traz vinhos superiores aos da linha Armador. O Orzada Chardonnay 2022 (R$149,90) combina textura, mineralidade e um equilíbrio impecável entre fruta e madeira. As uvas também são adquiridas da Viña Matetic, em San António. Como a Matetic também produz Chardonnay, um exercício interessante é comparar o que cada enólogo produziu com as “mesmas” uvas como eu mencionei aqui.

Uma curiosidade que pode interessar os enonerds (como eu!)  é que parte do vinho é fermentado e estagiado em barricas de acácia, além das tradicionais barricas de carvalho frances.

Os tintos, por sua vez, mostraram a força e a diversidade dos respectivos terroirs. Todos são obtidos por fermentação expontânea, acrescendo uma camada extra de complexidade. Um dos mais queridos da Fran é o Orzada Carignan, e eu também gostei muito dele, por diferentes motivos.

Fran tem razões sentimentais.

Vinhos Odfjell

Carignan: variedade patrimonial

A Odfjell é parte dos Vignadores de Carignan – VIGNO – uma associação de produtores comprometidos com a valorização do patrimônio cultural representado pela variedade no Maule. A uva chegou ao país nos anos 1940, para “ajudar” com cor e estrutura os vinhos de uva País. Assim como as parreiras de País, nunca foi valorizada e ficou relegada às mãos de pequenos produtores. Muitos vinhedos foram arrancados e substituídos ou abandonados. As vinhas sobreviventes são um testemunho da história chilena. E do terroir, já que os solos graníticos e pobres e o cultivo em secano garantem maior frescor e rusticidade aos vinhos do lado de cá do Equador, comparados com o sul da França de onde é originário.

O amor à Carignan motivou a compra do vinhedo em Cauquenes, com videiras de 1952 em pé franco, sem condução (forma de plantio chamada de arbolito ou em vaso). A primeira safra saiu em 2001. Nessa safra 2022, que foi mais quente, o Orzada Carignan é uma explosão de frutas negras, com taninos muito amáveis, que secam a boca mas não raspam. A acidez é marcante. Sem madeira. Energia pura.

já o Orzada Cabernet Sauvignon 2022 confirma o Maipo como uma das grandes origens mundiais da uva.

Os blends de prestígio

Subindo de patamar, o Elusiva 2021 (R$279,90) e o Aliara 2019 (R$279,90) mostraram sofisticação e complexidade. O Elusiva é um corte de Carignan (50%), Cabernet Sauvignon (30%), Carmenère (15%) e Tempranillo (5%). Já o Aliara substitui a Tempranillo por um toque de Syrah (20%), Malbec (15%) e Mourvèdre (5%), mantendo a base Carignan-Cabernet. Ambos amadurecem por 24 meses em barricas francesas, revelando profundidade, camadas de aromas e grande potencial de guarda.

O ponto alto da degustação foi o Zippora 2019 (R$599,90), criado em homenagem aos 25 anos da vinícola. Ícone da Odfjell, o rótulo sintetiza a filosofia da casa e já nasce como um marco em sua história. Falei sobre o Zippora aqui.

Sustentabilidade como identidade

Mais do que vinhos de qualidade, a Odfjell se diferencia por sua forma de trabalhar a terra. Localizada no Vale do Maipo e no Vale do Maule, a vinícola ostenta o selo Vinho Sustentável do Chile, além de certificações orgânica e vegana.

No lugar de tratores e máquinas pesadas, quem circula pelos vinhedos são os cavalos da raça Norwegian Fjord, trazidos da Noruega e únicos no Chile. Eles substituem a mecanização convencional, reduzindo a compactação do solo e favorecendo a regeneração natural.

O cuidado vai além: colmeias próprias ajudam na polinização e na saúde do ecossistema, ilhas ecológicas estimulam a presença de insetos benéficos, e pesticidas ou herbicidas sintéticos não entram na rotina da vinícola. Até mesmo os resíduos da vinificação ganham novo propósito, transformados em composto para nutrir os vinhedos.

“A Odfjell é integralmente pautada pela sustentabilidade. Do manejo dos vinhedos à chegada dos vinhos ao mercado. Esse trabalho focado na saúde da terra e das pessoas está expresso de forma autêntica em nossos vinhos”, explica Juan Ignacio Zúñiga, gerente geral da vinícola.

A nova fase da Odfjell no Brasil

Com a nova estratégia comercial, a Odfjell não apenas encurta o caminho até o consumidor, mas reforça um compromisso: tornar vinhos sustentáveis e de alta qualidade mais acessíveis. Em um mercado cada vez mais atento à procedência e ao impacto ambiental do que consome, a vinícola chilena parece estar um passo à frente – provando que preço justo e autenticidade podem, sim, andar de mãos dadas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *