Ventolera & Gandolini: vinhos chilenos com a assinatura de Stefano Gandolini

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Degustar um vinho é sempre uma viagem. Mas quando o próprio enólogo está presente para contar as histórias por trás de cada garrafa, a experiência se torna ainda mais especial. Foi exatamente isso que aconteceu na degustação promovida pela Tanyno Importadora, que trouxe ao Brasil os vinhos da Ventolera e do projeto pessoal Gandolini, apresentados pelo enólogo chileno Stefano Gandolini.

Do frescor do Valle de Leyda, moldado pela brisa fria do Pacífico, à força elegante do Cabernet Sauvignon do Alto Maipo, a prova foi uma verdadeira aula sobre terroir chileno, inovação e dedicação.

Ventolera: quando o vento faz o vinho

A Ventolera está localizada em Leyda, a apenas 12 km do mar e antes da Cordilheira de la Costa. Seu nome alude ao vento do Pacífico, resfriado pela corrente de Humboldt, que atua como peça-chave no terroir. Ele garante dias frescos, noites amenas e um amadurecimento lento das uvas, com menor necessidade de pesticidas.

Os vinhedos crescem em solos rasos sobre uma rocha-mãe de 100 milhões de anos, rica em quartzo e ferro. Com o tempo, fissuras se abrem e permitem que as raízes penetrem em busca de nutrientes, resultando em vinhos de grande mineralidade e caráter.

Foi o visionário Pablo Morandé, nos anos 1980, quem percebeu que Leyda poderia ser ideal para as variedades borgonhesas Chardonnay e Pinot Noir. A região, na latitude 36°, recebe o dobro de insolação da referência Borgonha. O frescor marítimo compensa o calor extra, garantindo maturação lenta e preservando a acidez. Ao mesmo tempo, esse clima mais quente permite vinificações ao estilo borgonhês, como a técnica de cacho inteiro, que adiciona taninos firmes e estrutura aos Pinot Noirs.

Os rendimentos dos vinhedos são baixos (menos de 5 ton/ha), o que se traduz em vinhos concentrados, expressivos e cheios de personalidade.

A degustação ao estilo borgonhês

Seguindo uma tradição da Borgonha, os brancos foram servidos após os tintos — um detalhe curioso que já anunciava boas surpresas.

Ventolera Tintos

  • Ventolera Pinot Noir – Syrah 2019
    Um corte inusitado: 32% de Syrah, a última variedade a ser colhida em Leyda, trazendo especiarias e corpo extra ao vinho, e 3% de Chardonnay envelhecido por 5 anos em barrica, adição curiosa feita “para dar liga”, como contou Stefano. Os 15 meses em carvalho francês estão perfeitamente integrados.
  • Ventolera Pinot Noir 2018
    Elegância pura, com aromas intensos de frutas vermelhas. Mesmo após 14 meses em barrica, mantém frescor e delicadeza. Não à toa recebeu 95 pontos de Robert Parker.

  • Ventolera Syrah 2020
    Com apenas 9 meses em carvalho novo, traz aromas de frutas negras, pimenta e um sutil tom azeitonado. Fresco e equilibrado, mostra a face mais delicada da Syrah em Leyda.

  • Private Cuvée Pinot Noir 2016
    Sem passagem por madeira, revela toda a essência da fruta. Produzido em edição minúscula (2.100 garrafas), nasceu da curiosidade de Stefano em ver como o Pinot se comportaria sem carvalho. O resultado foi surpreendente: intenso, vibrante e ainda jovem.

Ventolera Brancos

Se os tintos já impressionaram, os brancos foram um espetáculo à parte. A linha Private, de rótulo negro, não passa por barrica. Os brancos ficam 5 anos em tanques de inox em contato com as lías (sur lie), o que dá cremosidade, complexidade e protege o vinho, que em seu primeiro ano não recebe sulfitos.

  • Ventolera Sauvignon Blanc 2022
    Nada de tropicalidade: este Sauvignon é mineral, fresco e concentrado, cheio de sabor e elegância.
  • Private Cuvée Chardonnay 2017
    Com rendimento baixíssimo (apenas 3 ton/ha), mostra intensidade, cremosidade e forte caráter mineral. Um branco que não teme vir depois dos tintos.

  • Private Cuvée White Blend 2016
    Chardonnay com 25% de Gewürztraminer: mais vibrante e ácido, cheio de aromas elegantes, sem o floral intenso típico da Gewürz. Um vinho irrepetível, já que as vinhas dessa uva foram arrancadas.

  • Private Cuvée Sauvignon Blanc 2018
    Fala diretamente do mar: fresco, elegante, com leve salinidade e notas cítricas. Refinado e com espírito de Velho Mundo.

  • Rare Cuvée Fumé Blanc 2016
    Os Rare Cuvée vêm com etiquetas azuis. O nome da linha foi inspirado nos Rare Single Malt e, esse vinho em especial, inspirado no Sauvignon Blanc criado por Robert Mondavi nos anos 1980. Mas os 5 anos de envelhecimento em barricas novas aqui só é perceptível no final de boca e, ainda assim, bastante sutil. Estevan explicou que o segredo são as lías: “no primeiro ano a madeira aporta muito (sabor e aromas) ao vinho. Isso só passa a diminuir a partir do terceiro ano”. A vanilina e outros compostos liberados pela madeira, ele explica, vão gradualmente sendo absorvidos pelas leveduras e os aromas frutados voltam a se sobressair. O resultado é um Sauvignon Blanc marcante. Cremoso e envolvente, com aromas de damasco e amêndoas.

Por fim, voltamos aos vinhos tintos para degustar o Gandolini – projeto pessoal de Stevan.

Gandolini Las 3 Marías: o Cabernet Sauvignon do Alto Maipo

Após Leyda, viajamos para o coração do Alto Maipo, berço de alguns dos maiores Cabernet Sauvignon do Chile.

O Gandolini Las 3 Marías é o projeto pessoal de Stefano Gandolini, que sempre teve essa uva como fio condutor de sua carreira — passando por Bordeaux, Toscana e Napa até voltar ao Chile. Incentivado por Pablo Morandé, escolheu o Alto Maipo, onde em 2001 plantou os vinhedos em um terreno que antes era… plantação de batatas.

Em 2001 plantou as primeiras videiras. Foram 14 anos até que a primeira garrafa, de 2011, saísse ao mercado. Foram 33 mil garrafas. Desde então as premiações tem~se acumulado, como a safra 2015, que foi um dos principais destaques de uma degustação às cegas de ícone chilenos (como Chadwuick, Almaviva, Don Melchor… e ótimos reviews do Guia Descorchados.

Stefano produz apenas esse rótulo. Cada parcela é vinificada em microtanques, com fermentação espontânea e muito lenta. O vinho estagia por pelo menos 30 meses em barricas novas, resultando em potência, mas também em finesse.

O nome “Las 3 Marías” homenageia as mulheres da vida do enólogo: sua mãe, avó e esposa.

Na taça, a safra 2017 mostrou frutas vermelhas, notas minerais e taninos delicados, mesmo em um ano quente e com 14,5% de álcool. Um Cabernet que une força e elegância — e que explica o entusiasmo que ele desperta.

Esse vinhos chegam ao Brasil no portfólio da Tanyno.

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