Um pequeno país mostra que, para os vinhos, site importa mais que size (tamanho)
O Chile voltou a surpreender o mercado brasileiro. Pela primeira vez, o road show Site Matters reuniu lado a lado grandes vinícolas da Wines of Chile e os pequenos produtores artesanais do MOVI (Movimento de Vinicultores Independentes). O evento, realizado em São Paulo, combinou uma ampla degustação para profissionais e formadores de opinião com quatro masterclasses temáticas que destacaram a pluralidade da vitivinicultura chilena.
Como bem disse Angélica Valenzuela, diretora comercial do Wines of Chile: “o Chile não é ‘novo mundo’; o Chile é ‘meio mundo’!”.
Cooperação em tempos de retração
O nome do evento, um trocadilho com “Size Matters”, traz um recado claro: no vinho chileno, não é o tamanho que importa, mas o terroir e o estilo. Num cenário de retração do consumo global, a união entre gigantes e pequenos se torna uma estratégia inteligente para mostrar a amplitude do país. A Argentina já segue esse caminho há alguns anos, promovendo seus clássicos Malbecs ao lado de vinhos de regiões emergentes como Uco e Patagônia.
As quatro masterclasses do Site Matters
Além da degustação livre, jornalistas e especialistas participaram de quatro masterclasses que revelaram diferentes faces do vinho chileno:
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Classics: uma celebração dos ícones que consagraram o Chile no mundo.
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Pushing Boundaries: a ousadia de expandir para o norte, o sul e as altitudes extremas.
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Coastal Range: a aposta nos vinhedos próximos ao Pacífico, beneficiados pela fria corrente de Humboldt.
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Old Vines: um mergulho no patrimônio chileno de vinhas antigas, muitas centenárias.


Vinhos que marcaram presença
Classics
O destaque ficou com o Carmen Gold Cabernet Sauvignon 2021, de uma safra considerada histórica no Chile pelo frescor. Um vinho delicado em boca, com ótima acidez e taninos firmes, daqueles que secam tudo.
Pushing Boundaries
Duas experiências memoráveis:
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Tara Chardonnay (Ventisqueiro), cultivado no deserto do Atacama — fruto do espírito desbravador da vinícola. O primeiro vinhedo morreu pela salinidade da água, mas foi replantado. Hoje entrega um vinho fermentado espontaneamente, com 50% de cachos inteiros em ovos de concreto feitos da areia do deserto.
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Handmaid Chardonnay, da Trapi del Bueno, no extremo sul chileno: cheio de textura e identidade.
Coastal Range
Aqui brilhou o Arganat 2023, um Chardonnay que fechou a degustação após os tintos e mostrou força e equilíbrio. O produtor, que também é toneleiro, desenvolveu uma técnica única de tosta das barricas utilizando apenas brasas, o que elimina os aromas pesados de madeira. Além disso, o vinho passa por ânforas de vidro transparente — uma novidade que atiçou a curiosidade de todos.

Old Vines
Do Maule, o Terranoble Raíces del Maule surpreendeu como um “suquinho” com taninos firmes. Já o Guillmore Hacedor de Mundos 2019, um Cabernet Franc de vinhas de 90 anos em Loncomilla cultivadas em secano, exibiu acidez impressionante — consequência da limitação natural na absorção de potássio.
Degustação livre: mais pérolas escondidas

Na área aberta, o explorador atento (e ouvinte ávido das dicas dos colegas) pôde descobrir mais tesouros:
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Sin Truco Malbec, da Moretta, um Malbec artesanal sem maquiagem, que mostra a expressão da “uva do vizinho” no terroir chileno.
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As castas italianas da Guillmore (Aglianico e Montepulciano), prova da versatilidade chilena.
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Os vinhedos pré-1900 da Kodkod, pura história engarrafada e patrimônio chileno que faz inveja nos vizinho.
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Um belo “ramato” de Pinot Grigio (Villard Pinot Grigio Ramato JCV 2023). Estilo original italiano, de cor acobreada, que lembra os vinhos laranjas. Muita gente pensa que Pinot Grigio é só uma uva branca para vinhos leves, mas a verdade é bem mais complexa (e já contei essa história em detalhe em um episódio do podcast – ouça aqui).
Meus destaques pessoais

Alguns vinhos ficaram na memória:
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Ocio, da Cono Sur: um Pinot Noir fresco, frutado, com leve passagem por barrica.
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Polkura Syrah: de cultivo em secano, com surpreendente aroma de melão; produção minúscula, entre 500 e 2 mil garrafas/ano.
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Licanten Cabernet Franc, de solo de licorella, profundo e elegante.
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OWM 2018: uma explosão de aromas em boca.
Chile em versão completa
O Site Matters mostrou que o vinho chileno não pode ser reduzido a um único estilo ou uva. O país é capaz de entregar desde os clássicos de Maipo e Colchagua até projetos ousados no deserto do Atacama ou em vinhas centenárias do Maule.
Mais do que um evento de degustação, a edição brasileira foi um manifesto pela diversidade e pela cooperação. Porque, no fim das contas, no vinho — e nos negócios — “site matters” muito mais do que “size matters”.
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