Pode até parecer o Douro, mas é Mantiqueira

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A paisagem pode até lembrar o Douro ou a Toscana, mas estamos a poucas horas da capital paulista. O cenário é a Serra da Mantiqueira, na divisa com Minas Gerais — região de montanhas, clima fresco e tradição cafeeira que hoje desponta como um dos destinos mais promissores do enoturismo brasileiro (e uma história muito Napa Valley!).

Vista dos vinhedos na Casa Geraldo

História dos vinhos da Serra da Mantiqueira

Durante muito tempo, o encanto da Mantiqueira esteve restrito às suas paisagens e à produção de cafés premiados. Os vinhos que surgiam eram, em geral, de mesa: rústicos, feitos com uvas híbridas resistentes, mas distantes do padrão dos vinhos finos.

A virada veio com a introdução da técnica da dupla poda, que altera o ciclo da videira para que ela produza no inverno – saiba mais. Com isso, as uvas amadurecem com tempo seco e alta amplitude térmica, concentrando o precioso açúcar e revelando aromas e sabores mais complexos. O grande marco foi em 2016, quando o Syrah Vista do Chá 2012, da Vinícola Guaspari, conquistou medalha de ouro no Decanter Wine Awards. De repente, a Mantiqueira entrou no mapa do vinho mundial.

Desde então, mais de 50 vinícolas já se instalaram na região (há cerca de 80 projetos no total). Vieram prêmios nacionais e internacionais, turistas em busca de experiências autênticas, novos hotéis e restaurantes. O movimento está transformando a paisagem econômica e já rendeu à Mantiqueira o apelido de “Toscana brasileira”.

Mais Napa que Toscana

A vinícola de arquitetura moderna contrasta com a sala de degustação, na antiga casa sede da fazenda caffeira.

Se o clima e os vinhedos podem lembrar a Toscana ou o Douro, as histórias se aproximam muito mais das do Napa Valley, na Califórnia. Lá, como aqui, o vinho nasceu de pioneiros sem tradição vinícola, mas com enorme paixão pela viticultura (conheça a história que subverteu o mundo dos vinhos aqui).

Alguns já estavam por aqui. É o caso de Marcelo Pioli, que produzia café em Jacutinga e em 2017 plantou seus primeiros vinhedos. Também é a história da Casa Geraldo e Stella Valentino, que produziam vinhos de mesa e visulmbraram a oportunidade dos vinhos finos.

Warren e o filho, Steve, irrigando as primeiras videiras plantadas

Outros vieram em busca de uma vida mais bucólica, lembrando a trajetória de Warren Winiarski, o professor que se tornou viticultor e colocou o Napa no mapa ao vencer os grandes Bordeaux no Julgamento de Paris (ouça aqui).

Assim como Winiarski, há quem tenha apostado todas as fichas no sonho vinícola. Jeyson Ferreira, da Mirantus, é um exemplo. Até a figura do enólogo estrangeiro está presente — embora em condições bem mais favoráveis que as de Mike Grgich quando chegou à Califórnia para fazer o Chateau Montelena e desbancar os grandes brancos da Borgonha – conheça a história aqui e aqui.

O Robert Mondavi tupiniquim

Para completar esse meu paralelo com a história do Napa ainda falta o equivalente à figura de Robert Mondavi – um misto de garoto propaganda, visionário e cheer leader (conheça a história aqui) melhor representado por um blend de personagens locais.

A inspiração

Não há dúvidas quanto à grande inspiração para a transformação da região. Nas várias conversas, todos mencionam a história de sucesso da pioneira Guaspari. A premiação internacional de 2016 obtida por eles desencadeou um ciclo virtuoso: trouxe reconhecimento, atraiu turistas, gerou empregos e estimulou novos investimentos.

Como os proprietários da Guaspari preferem ficar mais distantes e a vinícola desfruta de uma gestão independete e profissional, o papel de Mondavi tupiniquim acabou sendo compartilhado com 2 outros players. As vinícolas Amana e Terra Nossa.

O espírito coletivo das vinícolas da Mantiqueira

Chama a atenção de quem visita esse novo polo do vinho nacional o aparente clima de cooperação reinante. E esse pode ser justamente o ingrediente perdido que será o diferencial para o sucesso. Como foi no Napa.

Vinícola Amana incorpora esse clima de cooperação em mais de um sentido. Nasceu em 2016 da iniciativa de um grupo de 20 amigos que se associaram para produzir vinhos. Hoje são 44 sócios e desde 2024 têm instalações próprias. Além de, elabor seus rótulos também vinificam para parceiros da região.

Mas no início, precisaram de apoio. E foi a Terra Nossa que abriu caminho. Criada pelo enólogo chileno Cristian Sepúlveda (a versão Grgchi – ou seria mais um Andre Tchelistcheff? Vide quadro abaixo – dessa história dos trópicos) e mais quatro colegas que haviam trabalhado juntos na Guaspari. A vinícola nasceu em 2014 com terras arrendadas — de onde vem o nome irônico “Terra Nossa”.

A história é saborosa: as terras pertenciam à tia de um dos sócios, o André (não o Techelistecheff!), que me contou o caso numa barulhenta mesa de restaurante. Em 2017, eles tentaram comprar o terreno, mas a tia recusou — talvez já a pedido do primo de André, que mais tarde instalaria ali a Vinícola L’Origine.

A Terra Nossa nasceu e cresceu praticamente sem capital. Os sócios, todos com experiência no setor, acreditaram que poderiam desenvolver seu negócio ajudando outros negócios a crescer. Hoje dão consultoria nos vinhedos e produzem grande parte dos vinhos da região, inclusive os da Vinícola L’Origine.

Esses cruzamentos de histórias dão à Mantiqueira um ar de comunidade. Todo mundo parece conhecer todo mundo, e isso pode ser um trunfo para a região. Afinal, no Napa também foi assim: pioneiros se apoiando, compartilhando conhecimento e transformando um vale pouco conhecido em referência mundial. Todo mundo ganha.

No fim, fica claro que a Mantiqueira não é apenas “a Toscana brasileira”. Ela tem tudo para escrever sua própria história — feita de montanhas, cafés, vinhos e gente que acreditou em um sonho – como em Napa!

Roteiro de 4 dias na Serra da Mantiqueira

Todas as conversas para esta matéria foram coletadas durante quatro dias de viagem pela região, num roteiro desenhado e cuidado pela WannaGo. Vivi de perto essa efervescência. Provei rótulos surpreendentes, ouvi histórias de coragem e paixão. Descobri também que o café segue firme como protagonista, convivendo em harmonia com o vinho. E comi muito bem, obigado!

Para quem quiser conhecer, compartilho aqui meu roteiro com breves informações sobre cada parada. Pode servir de inspiração para você organizar sua prória viagem ou para direcionar a WannaGo no design de um roteiro específico para seus interesses. Enjoy!

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